Fragmentos de mim

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O amor é a resposta

Existem quatro perguntas:
1. O que é sagrado?
2. De que é feito o espírito?
3. Por que vale a pena viver?
4. Por que vale a pena morrer?
E para todas elas a única resposta é o Amor.

Um dos dezenas de trechos do discurso de Dom Juan DeMarco que traduz a profundidade do sentir e a razão maior de todas as coisas. Sem amor e sem amar nada faz sentido. O amor sacraliza quem antes passava despercebido. Que outra razão se não o amor para nos sustentar quando tudo nos levaria a desabar ou quando realmente desabamos?
Por Amor vale a pena viver e vale a pena morrer mesmo, das muitas mortes por que cada ser passa ao longo de uma vida... E quanto mais se ama, mais se morre e, por isso mesmo, com mais intensidade se vive. 

"O Amor é a dor que nos aproxima de Deus", me disse uma mãe, certa vez... Não exige retorno, não invade o outro. Com amor, tudo se paga, inclusive e, principalmente, a falta de amor.  Quem mais precisa de amor se não aqueles que não o têm em si? O Amor é a transcendência de tudo, talvez por isso, para se amar verdadeiramente, às vezes, seja necessário despojar-se de tudo e enxergar além. Amar é exercer o profundo movimento  de desaprender ... É tirar as roupas da alma e construir, para si próprio, o sentido das coisas e das pessoas... 
Quem ama vê beleza onde e em quem ninguém vê. O amor dispensa estética porque ele é, em si mesmo, a essência e a estética perfeita de tudo. O amor é o ingrediente mais seguro para a felicidade, o único padrão perfeito de sanidade.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Eu Sou

Sou cor,
Sou luz,
Sou movimento.
Sou a transformação de quem se desconhece a cada nova etapa, e que se perde...
para se reencontrar...
Porque só "os mortos" estão prontos.
E eu sou alma, pura essência da eternidade, trilhando caminhos diferentes e sendo outra ao passar pelos caminhos de outrora.
Se me quiser por perto, não me espere, ande comigo,
Corra comigo,
Grite comigo... Ore comigo...
Porque minha paz é movimento.
Sou mais que a paixão que queima,
Sou o amor, que arde,
Que dói e renasce.
Sou a vida que se transforma,
O sentimento que transborda no grito que silencia e no olhar que fala...
Sou a feminilidade à flor da pele... A amante, a filha, a mãe, a bruxa, a rainha...
Eu sou mulher.

domingo, 1 de dezembro de 2019

A eterna descoberta

Descobrir-se é um caminho solitário e não importa quantas pessoas nos acompanhem.
É sentir cada sensação e provocação do universo ao movimento.
Viver é caminhar... E cada movimento é uma decisão só nossa. Ninguém sente pelo outro, por mais empatia que haja. Ninguém pode viver por ninguém e ninguém pode nos salvar se a decisão de salvação não partir de nós.
 Viver é desconstruir-se...
Sentir cada dor,
Renascer em cada amor,
Desabrochar as nuances mais profundas da alma,
Perder-se e encontrar-se,
Assumir cada erro e cada culpa.
E num processo ao mesmo de solidão e companhia, é nos darmos às mãos e aos abraços que conosco viverem essa sanidade louca de uma busca que é só nossa.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Uma prece d'alma

Eu não sou daqui. Sinto-me forasteira em meu próprio berço. Não reconheço como sendo meu o aconchego de minha mãe. Ela o concede por caridade, eu o recebo por necessidade, mas não é meu. Meu mundo é outro... Distante, meu caminho é solitário embora nunca vazio. Os seres que encontro por mim passam apenas. Ninguém fica. São transeuntes em minha vida assim como eu sou no mundo.
Descobri com dores na alma a verdade sobre as despedidas... As mais dolorosas são as que se configuram no silêncio, pois são construídas pouco a pouco, nos pequenos desencontros, nas sintonias que se perdem, nos cristais que se quebram, nas reclamações que cessam, nas palavras e gestos que perdem o sentido e tornam-se desnecessárias, incômodas...
Quando isso acontece, é inútil tentar permanecer e, mesmo querendo ficar, é preciso ir embora ou nos expulsam. São círculos que se fecham no instante em que feridas se abrem... É preciso ir embora, viver a ferida em cada dor e aprender a domimá-la. Caso contrário, ela nos domina.
E o caminho segue, e seguimos carregando o pouco de si que cada um vai deixando em nós, incluindo cada chaga que foi aberta, enquanto enterramos cada ilusão que morre. Sim, porque nenhuma sobrevive... Viver é sagrado e verdadeiro demais para carregar mentiras, por mais belas que sejam. E aos poucos, descobrimos que cada dor foi um presente, porque somos cegos demais para enxergar na alegria, ingratos demais para nos doarmos sem interesses - por mais nobres que pareçam. Somos tolos demais para entender o Amor sem sofrê-lo.
Com um bom tempo de caminhada, percebemos que o caminho só é possível por ser assim, pois ilusões pesam demais para serem levadas adiante; que nos enganamos com nossos afetos e que eles, muitas vezes, se convertem em espinhos que insistem em ferir onde já sangra.... Mas que quando se é verdadeiro com quem se ama, cada cicatriz é uma paisagem, pois não é o espinho em que o outro se converte que nos define, mas o destino que damos a eles...
Sigo forasteira no mundo, sem portar coisa alguma além dos espinhos de hoje...  Sem sensação de pertencimento ao mundo... Sigo leve e em paz, pois não sou daqui, estou passando e aprendendo, seguindo em frente, me doando ainda que muitos se sintam importantes demais para receberem algo de mim... Pode parecer melancólico ou triste... Prefiro chamar de felicidade.


terça-feira, 5 de março de 2019

O voo

Não obstante o corpo de limitadas aptidões, fui dotada de uma alma que voa. Livre feito águia, de asas fortes e olhar embevecido pela vida, meu espírito sempre voou acima de minha realidade, tantas vezes triste, tantas vezes desagradável ou horrível aos olhos da matéria densa, quase sempre ignota às demais criaturas que me cercavam. E assim fiz, e assim fiz-me. 
Voar acima dos precipícios que se me afiguravam medonhos. Voar, muitas vezes, com os olhos fechados, voar para simplesmente sentir a brisa a acariciar-me as faces carentes e solitárias. Nunca estive nos lugares onde vivi e por onde passei, nunca pertenci a nada nem ninguém e nunca tive coisa alguma. 
Voei sempre à procura do impossível carregando na bagagem muitos sentimentos intensos, mas especialmente amor. Talvez, por isso, nada tenha... Ah, o amor... Por ele eu teria criado raízes... Mas talvez eu não quisesse ou não pudesse criar raízes... e do meu mais profundo sentir eu o doei àqueles que se fizeram receptivos e aos que não se fizeram também... Mas doei mesmo assim por perceber que precisavam. É fato que muitos o atiram fora, entendem como sendo pedras as pérolas mais caras do meu coração, mas por ser a força motriz do universo, estou convencida de que o amor não mata nem morre, mas reestrutura-se e redime.
Voei sempre, não pertenço a nada nem nada ou ninguém me pertence e, passados esses anos, minhas asas cansaram. Cessei o voo de fuga de mim mesma e parei diante do caminho. Não posso mais fugir nem ter medo de me ver refletir nas águas de minha consciência, ainda que a imagem seja medonha...
Não posso mais voar, e agora, sinto o calor do chão sob meus pés, contemplo o céu e não sei qual caminho seguir, pois das opções de rota que tenho hoje, a realidade e seus reveses me deixam com medo...
Não posso fugir dos anos que pesam, do silêncio que grita, da solidão que afugenta, da dor das pérolas devolvidas como pedras que me machucam e fazem a alma sangrar.
Não sinto pena de mim, mas queria poder consolar a mim mesma, porque me vejo mulher e menina. Queria poder me pegar no colo em que me consolaria dos choros convulsivos a me dar a certeza de que o mesmo amor que faz sangrar também faz curar, porque em suas multifaces, ele é a única salvação.
Eu queria também ser menos egoísta, queria saber amar sem espera, queria que o silêncio não doesse tanto, que o autoperdão fosse suficiente para seguir sem esses espinhos a ferirem tanto os pés que agora pisam o chão. Eu decidi que vou seguir amando ainda que sem respostas, ainda que com desprezo. Porque entre todos os seres dos mundo, há os que merecem nosso amor e os que precisam dele. Ainda que em total silêncio, ciente da impotência de mudar as coisas, totalmente invisível ou incômoda a quem amo, eu vou seguir sentindo, amando e aprendendo, me redimindo, até além... Até poder voar novamente.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Se...

Se fere, abra mão.
Se feri, perdoe-me, se puder...
Se alegra, viva.
Se alegro, faça-me companhia.
Se estiver triste, me chame.
Se eu estiver triste, me ajude a levantar.
Se sentir vontade de chorar, chore.
Se eu chorar, oferte-me seu ombro amigo.
Se sentir amor, permita-se vivê-lo.
Se eu amo, não se ofenda.
Se não pode corresponder ao amor, não sinta culpa.
Se não pode corresponder ao meu amor, não sinta pena.
Se se apaixonar, confesse.
Se eu me apaixonar, me entenda.
Se te abandonar, perdoe.
Mas não me abandone.
Se errar, assuma. 
Se eu errei, me desculpe.
Se incomoda, fale.
Se eu incomodo, não deixe de me alertar.
Não deixe nada nem ninguém sem respostas. A começar por si mesmo. Por medo ou vergonha de facear nossas verdades, muitas vezes nos escondemos nas sombras das ilusões. Mas ilusões são feito nuvens que passam, por mais pesadas que sejam. Quem nos ama verdadeiramente, nos compreende. Alguém te ama verdadeiramente? Qual a sensação? Por quê?
Ainda sobre nuvens, lembre que elas mesmo pesadas e sombrias, passam... Dissipam-se com o tempo. Sempre prevalecerá o Sol, que acima das nuvens e, majestoso, ilumina e aquecea tudo e a todos, aos justos e aos injustos, aos felizes e aos tristes, aos amantes e aos solitários. Ele é para todos nós, se aquece ou se queima, depende de como nos portamos diante dele.
Façamos, portanto, de nossos afetos um jardim, cultivado e regado com carinho e fraternidade. Mas lembremos que cada flor tem uma alma. Não releguemos nossos jardins ao lodo da indiferença e do abandono. Ou mesmo ao sol, pois é fato que ele aquece, mas também queima e mata as plantas que não recebem água. 
Se sentir vontade, fique, mas se quiser embora,  ao menos diga por quê...

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Elogios diários

Ela estava não sabia há quantos meses em terapia e pouco falava de si. O assunto era ele, seu relacionamento com um homem mais experiente a quem ela admirava e servia. Sim, servia, porque apenas anos e muitas experiências de vida depois é que ela perceberia o quão abusiva era aquela relação.
De si falava apenas "as pessoas esquecem que as crianças tornam-se a adultas". Ela falava isso enquanto os ecos das gargalhadas de escárnio das primas - consideradas bonitas e decentes - e colegas da escola atormentavam-lhe a mente. Foram muitas as situações de humilhação. As mentiras inventadas sobre ela e que, raramente encontravam obstáculos à aceitação de terceiros. Nessas ocasiões, os castigos eram inevitáveis, fossem eles físicos e, mais comumente, psicológicos. Na verdade, ultrapassavam os limites da indecência e imoralidade.
Para continuar os estudos, precisava ficar abrigada na casa de parentes. A exceção de um membro da família, todos os demais pareciam odiá-la. O que era completamente escondido diante das visitas. No íntimo do sagrado lar de pessoas tão boas e mocinhas tão lindas e dedicadas à religião, um verdadeiro inferno se descortinava à pobre menina sonhadora que não entendia tanto ódio e acreditava realmente que era o grande problema. 
"Você é muito porca!" "Sai, nojenta, não quero me sujar perto de você!" "Seu cabelo é feio e nojento." "Burra, incapaz e preguiçosa. Você nunca vai ser nada porque não presta". Era mimoseada todos os dias. Cenas ocorreram em que a priminha linda e pura amassava panelas, quebrava louças enquanto gritava "para de quebrar as coisas. Você precisa ser mais cuidadosa". E ia correndo simular choro para a mamãe fingindo-se de vítima... Ela não sabia se defender. Compreendia-se realmente suja e nojenta, entendia-se preguiçosa embora passasse fome e trabalhasse na roça desde cedo, sob sol escaldante e o contato com as palhas do milho feria-lhe a pele. 
Roupas não tinha. Eram trapinhos herdados das santas ou feitos com carinho pelas limitados dotes de sua mãe biológica que costurava usando restos de tecidos que conseguia comprar por um valor irrisório. Na casa dos parentes, ela tinha muito medo de esquecer alguma de suas roupas no banheiro depois do banho. Certa vez isso ocorreu e a cena foi dantesca. A matriarca da casa pegou com as pontas dos dedos as peças no cantinho onde haviam sido esquecidas e jogou no chão no meio da casa. Enquanto chutava-as dizia que da próxima vez em que aquela carniça ali fosse encontrada, seria jogada no lixo, que era o local correto.
A menina tinha dez anos de idade apenas.  Apanhou do chão e em silêncio suas roupas... Decidiu que não queria mais estudar. Estudar não era pra ela. Ia ficar na roça mesmo. Semanas depois, os santos parentes chegaram em sua casa e disseram que ela era um caso perdido, não sabia ser mulher, era porca e desajeitada. No entanto, como eram pessoas de bom coração, iam aceitá-la de volta em sua casa. 
Ela, que não havia dito nada em casa, viu-se obrigada a voltar ao inferno onde permaneceu por alguns anos, até ser expulsa no meio da noite.
A menina tornou-se mulher, perdoou os que passaram, mas alguns monstros são difíceis de domar. Possivelmente, domar seja o termo mais apropriado. Há quem alimente os monstros até confundir-se com eles. Ela não quer isso. Ela acredita na transcendência e aposta que um dia possa ser limpa em seus sentimentos e intenções. Porque há sujeiras que a água não lava e há feridas que apesar de sararem, têm memórias. Bem, quanto ao relacionamento abusivo, foi só uma folha que, depois de seca, caiu e não faz falta.