Fragmentos de mim

domingo, 1 de outubro de 2017

A gente só dá o que tem

"A gente só dá o que tem". Era a frase que ecoava sempre que alguém lhe fazia alguma coisa desagradável. E eu, na minha estupidez de criança e, posteriormente, estupidez de adolescente e jovem, permanecia achando óbvia a frase, sem, contudo compreender a grandiosidade de sua filosofia.
Os tempos foram passando - graças a Deus que eles passam - e aqui estou eu, adulta, finalmente percebendo o teor profundo de sabedoria de minha avó materna, com quem travei tantos diálogos na adolescência. Ah, que saudade daqueles diálogos... chego a ouvi-la agora enquanto escrevo e a saudade dela e de outros amados que não posso mais abraçar me abraça...mas é verdade... a gente só dá o que tem.
Não se dá amor quando não se tem amor. Não se dá compreensão quando não se tem compreensão. Não se dá perdão quando ele não habita a própria alma. por outro lado, dá-se ao outro tudo o que se tem de sobra. E isso é assustador. Já imaginou como é sofrida a alma de quem distribui a dor? Como devem ser terríveis os dias de quem semeia discórdia? Sim, porque se distribui aos outros essas sensações, certamente que as têm sobejamente a mastigar, ferir, dilacerar a própria alma até derramar , não caber mais em si e envenenar os outros...
Como deve ser triste a vida de quem se limita ao mal!
Quer saber? Descobrir a profundidade da filosofia de minha avó ensinou-me a viver por uma coisa a mais, ensinou-me a ter misericórdia de quem faz o mal, pois já está tão infeliz que tenta ver alguém pior a si mesmo. Pobres almas... Ah, mas não sou santa! Sinto dó, mas não confio. Dão-me apenas a certeza de que, apesar do poder que querem impor, estão na miséria. Desnudei suas almas, descobri a chave de uma de suas verdades e, por isso mesmo, quero distância!
Encontrei, talvez, o caminho de não perder tempo com sentimentos tolos e passo a viver em função de algo maior: a Consciência. Não a minha, que já é  bem acusativa, diga-se de passagem, mas à consciência divina, que está acima de tudo, de todos e de cada um.

Cada vez que alguém impor sobre mim seu veneno, vou ter a certeza de que essa pessoa já em plena letargia espiritual, afinal "a gente só dá o tem" e o que tem de sobra.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ele, nós

      Ele está quieto. Não reclama, não faz barulho. Ninguém além dele mesmo é capaz de mensurar as dores que sente e, mesmo assim, permanece quieto.
    Preso em um pequeno ambiente, ali recebe água, comida, medicamentos. O atendimento mais específico ainda não chegou, mas em breve chegará. Ele não sabe disso e, mesmo assim, permanece quieto.
   O ambiente em que se encontra não é o melhor. É claro que ele merecia algo melhor, mas no momento, isso não é possível. É certo que ele gostaria de estar livre e, mesmo assim, permanece quieto.
   Não é possível imaginar o que se passa em sua cabeça inocente, o que e quem reside em sua alma inocente de anjo. O mundo já lhe fez muito mal e, mesmo assim, ele permanece quieto.
      Sim, está quieto, não reclama, não se rebela. Sua atitude silenciosa e passiva é interrompida apenas quando esporadicamente recebe visitas, que o acariciam e alimentam. Assim permanece o Zé, o cãozinho adulto com a pata fraturada  a remexer sacolas de lixo quando foi encontrado. 
    Minha alma cheia de malícias certamente não me permitiria tanto silêncio, passividade (ou confiança?) diante uma pessoa desconhecida que o prendeu. Sim, a prisão foi para o bem dele. Está alimentado, mas certamente ainda sente dores e não faz a menor ideia do que está acontecendo. Ele está seguro agora, mas não tem como saber disso. Assim como foi "capturado" para ser cuidado o poderia ter sido (como inúmeros são) para ser torturado e morto e isso torna seu silêncio e confiança ainda mais fantásticos. O cãozinho não abre mão de si, independente de quem o esteja guiando. Seja para ser amado ou para ser morto, ele é um só. 
     Tão diferente de nós, não é mesmo? Tão superior a nossa é a capacidade dele em ser apenas ele mesmo. Sua pureza, sua inocência torna-o ao mesmo tempo forte e vulnerável. Forte, pois suporta o desconhecido com autenticidade; vulnerável, pois a força destrutiva do mal se aproveita da bondade para, sacrilegamente, profanar o que é puro. Ele é a natureza em nossas mãos. A Mãe Terra assim também age, não por inocência, mas por autenticidade, por poder. No que ela se transformará denunciará o que estamos fazendo a Ela hoje. 
     Nós temos a liberdade de escolher entre a coragem de contribuir para a lenta e salvadora força da vida e a cruel e instantânea força da morte, que por sinal é covarde, pois precisa ferir o frágil, abandonar o vulnerável, vilipendiar o nobre, por não ser capaz de seguir-lhe os passos e querer ser forte. O mal encontra sua força na fraqueza alheia, na covardia. O Bem demonstra sua força em fortalecer o fraco, levantar o caído, acolher o abandonado, consolar os desesperados, portanto, mostra quem é a partir da coragem e da paciência.
 Sarar uma ferida é sempre mais lento e trabalhoso do provocá-la. 
Escolhamos, então, a coragem. De covardes o mundo já está cheio!

domingo, 21 de agosto de 2016

A bala de café

Sou pessoa de ícones. Cheiros, palavras, imagens, tudo me marca e cria uma cadeia incrível de conexões entre si. Assim, em questão de milésimos de segundos, algo aparentemente insignificante me transporta para algo profundo, perdido em algum lugar no tempo e no espaço. 
Nesses momentos, rejuvenesço, viajo para lugares do passado, ressuscito pessoas e acontecimentos que não posso mais tocar. Assim tem sido com a bala de café. Meu irmão partiu desta vida... não sei como explicar, mas eu já sentia sua ida antes de todos... também é inexplicável o espaço que a ausência dele provoca. Algum tempo antes de ir, já não ouvíamos mais tanto a sua voz nem seu sorriso... ai, a bala de café... Ele havia sido diagnosticado com pneumonia, estava na UTI, e na quinta-feira eu fui visitá-lo. Sei que ele estava consciente e sentiu minha presença, percebi sua inquietação... eu me aproximei silenciosa, contemplava-o silenciosa, num choro mudo, estava gripada, tinha receio de piorar seu quadro. 
Como foi difícil deixá-lo ali sem abraçá-lo. Minha vontade era de agarrá-lo e curá-lo com meu amor. Mas eu sabia que não era possível. Ele, pedaço de mim, ficaria ali, sozinho, sem meu abraço, apenas com minha despedida, que Deus o abraçasse por mim e o conduzisse aonde a dor ficasse para trás... Na volta, ainda no carro, um amigo da família ofereceu-me uma bala de café, que como quase todas as balas que me ofertam, ficou esquecida no fundo da bolsa. (não sou pessoa de consumir balas, acabo recebendo-as em nome do carinho da pessoa que me oferece). 
Bem, o fato é que a bolsa ficou esquecida por algumas semanas e ao remexer nela, encontrei a bala... instantaneamente, transportei-me ao momento em que a recebi e, naturalmente, vi-me mergulhada nos sentimentos daquele dia, quando eu era a irmã mais velha e não a filha única... a esperança do meu pai de que ele sararia (a minha certeza de que ele não pertencia mais a esse mundo), ah... e a minha vontade infinita de dar aquele abraço que não dei...
Não tenho coragem de me desfazer da bala, também não a consumi... e sei que mesmo que o faça, ou quando o fizer, toda bala de café vai me fazer viajar no tempo e sentir de novo a vontade daquele cuidado que não pude oferecer...

A bala de café

Sou pessoa de ícones. Cheiros, palavras, imagens, tudo me marca e cria uma cadeia incrível de conexões entre si. Assim, em questão de milésimos de segundos, algo aparentemente insignificante me transporta para algo profundo, perdido em algum lugar no tempo e no espaço. 
Nesses momentos, rejuvenesço, viajo para lugares do passado, ressuscito pessoas e acontecimentos que não posso mais tocar. Assim tem sido com a bala de café. Meu irmão pariu desta vida... não sei como explicar, mas eu já sentia sua ida antes de todos... também é inexplicável o espaço que a ausência dele provoca. Algum tempo antes de ir, já não ouvíamos mais tanto a sua voz nem seu sorriso... ai, a bala de café... Ele havia sido diagnosticado com pneumonia, estava na UTI, e na quinta-feira eu fui visitá-lo. Sei que ele estava consciente e sentiu minha presença, percebi sua inquietação... eu me aproximei silenciosa, contemplava-o silenciosa, num choro mudo, estava gripada, tinha receio de piorar seu quadro. 
Como foi difícil deixá-lo ali sem abraçá-lo. Minha vontade era de agarrá-lo e curá-lo com meu amor. Mas eu sabia que não era possível. Ele, pedaço de mim, ficaria ali, sozinho, sem meu abraço, apenas com minha despedida, que Deus o abraçasse por mim e o conduzisse aonde a dor ficasse para trás... Na volta, ainda no carro, um amigo da família ofereceu-me uma bala de café, que como quase todas as balas que me ofertam, ficou esquecida no fundo da bolsa. (não sou pessoa de consumir balas, acabo recebendo-as em nome do carinho da pessoa que me oferece). 
Bem, o fato é que a bolsa ficou esquecida por algumas semanas e ao remexer nela, encontrei a bala... instantaneamente, transportei-me ao momento em que a recebi e, naturalmente, vi-me mergulhada nos sentimentos daquele dia, quando eu era a irmã mais velha e não a filha única... a esperança do meu pai de que ele sararia (a minha certeza de que ele não pertencia mais a esse mundo), ah... e a minha vontade infinita de dar aquele abraço que não dei...
Não tenho coragem de me desfazer da bala, também não a consumi... e sei que mesmo que o faça, ou quando o fizer, toda bala de café vai me fazer viajar no tempo e sentir de novo a vontade daquele cuidado que não pude oferecer...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Poesias que nascem, poesias que cuidam...

Os gestos dele são leves, embora marcantes, o olhar traduz amor... talvez pelo biotipo clássico de homem elegante, seguro das escolhas que fez até agora e de tudo que lhe foi possível viver, segura nas mãos o pequenino mundo que mudou o mundo de alguém, segura nas mãos a essência de suas escolhas... Como pode ser, ao mesmo tempo, tão pequeno, frágil e tão valioso?... o que ele tem nas mãos é a tradução de um milagre que se renova e que renova a sua escolha de vida.  
Sua tarefa é cuidar do Amor com Amor e é isso que seu olhar revela. Aparentemente desligado de tudo o que o cerca, sabe que tem, literalmente nas mãos, o início do futuro em que habitará quando sua história de vida tiver trilhado os caminhos que lhe aguardam.
O pequeno nem viu o mundo ainda, mas ele já viu muitas coisas nesse mundo e seu gesto, captado em fotografia, poderia ser uma espécie de metáfora da criação... Deus nos conduz pelas Próprias mãos no mundo que nos recebe, e ele recebe nas mãos aquela criança para assegurar sua presença no mundo... 
Porque pessoas são poesias que nascem, são poesias que morrem... médicos são poesias que cuidam,  poesias que veem nascer, veem morrer... e há pessoas e há médicos que não vieram à toa. Precisavam se fazer conhecer, tinham que se fazer ver e ensinar que tudo vale a pena, que a dor é poesia, e que sim, uma suposta tragédia pode ter um final feliz. 
O olhar do médico é o de quem superou o nível "POR QUÊ? e vive o "POR QUE NÃO?"... A foto é emblemática... uma vida que protege outra, uma vida que se vê na outra, uma vida que se vê renascer na outra... 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Perder alguém

Ah, a vida e suas surpresas... algumas nem tão surpresas assim... perder pessoas é, de todas, talvez a mais misteriosa. Não uma perda qualquer, mas a de quando a morte chega, atendendo a um pedido da vida, que decide ir embora...
Quando há amor, é impossível passar por isso sem sentir dor. Não uma dor qualquer, mas daquelas cuja intensidade cria a sensação de que a própria alma está em pedaços.,. Por alguns momentos, a gente chega a pensar que não existe mais e apesar de todas as explicações racionais, o luto é inevitável.
Mesmo quando tudo nos leva a perceber que a morte se aproxima e mesmo sabendo que ela é a única saída, a dor não se faz menor. Uma coisa é certa: fui condenada a ser filha única. Nesta vida, não há outra saída. E mais difícil que ser filha única é não tê-lo sido sempre, porque agora há a saudade...
Eu tive um irmão especial em todos os sentidos, pois nunca conheci e imagino que não conhecerei outro ser tão puro, tão bom, tão inocente e, ao mesmo tempo, tão inteligente. Guardo-o para mim e em mim o seu primeiro sorriso, nos primeiros dias de vida a me contemplar sereno... guardo a linda lembrança de seus ensaios de pronunciar meu nome enquanto engatinhava pela casa inteira, sorrindo e dizendo "Etxii..." repetia, repetia até eu entender que era meu nome que ele chamava... e como sorriu feliz quando finalmente entendemos que era por mim que chamava... me deu daqueles beijinhos babados de bebê em gargalhadas de felicidade...
Senti-me um pouco sua mãe...
Ah... quero guardar para mim as melhores lembranças do garotinho que sempre foi criança e cujas últimas palavras para mim, foram: "eu te amo". Sei que vou guardá-lo até além desta vida, aonde ele foi primeiro.
Sentimos tanto Amor, tanta saudade, tanta dor e, ao mesmo tempo em que torcemos para que o tempo corra, cada hora que passa, mais distantes nos tornamos do seu cheiro, da sua voz, do seu calor... mas em momento algum há revolta ou inconformismo... sabemos que ele estava cansado e seria egoísmo não nos conformarmos com os desígnios sábios da Natureza, que decidiu dar um basta em suas dores. Entretanto, nossa carne dói como se dela houvesse sido arrancado brutalmente uma grande e importante parte.
Como toda ferida, acreditamos que essa também vai sarar e do nosso menino brilhará sempre o sorriso franco e inocente, coisa tão rara nos dias que correm. Afinal, nós não o perdemos, apenas a Natureza o recebeu de volta e nos deixou com o presente de tê-lo tido conosco e de ainda o termos em nossos melhores sentimentos e recordações.
A morte do corpo não é um monstro, mas um alívio, uma necessidade e um fim do qual nenhum ser vivente está imune. Portanto, não perdi um irmão, estou apenas temporariamente sem poder tocá-lo, mas jamais sem amá-lo, sem senti-lo, sem lembrá-lo.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

É triste

É triste ver pessoas sofrendo de verdade
Para mostrarem felicidade de mentira.
É triste ver que o amor se tornou só uma palavra bonita,
A sinceridade ser usada para justificar a maldade
E a incoerência em tudo e todos passar despercebida.

É triste ver pessoas saindo da vida sem terem vivido,
Estenderem uma mão para ajudar e a outra para fazer uma self,
Ver o amor virar piada,
Falar a verdade ser tolice.

É triste ver as pessoas sentirem vergonha de ter fé,
Confundirem perdão com fraqueza,
Jogarem fora a franqueza,
Acalentarem carinhos que lhes convêm...

Ah... é triste, muito triste...
Viver num mundo em que ser desonesto é ser esperto,
Ser honesto é ser bobo,
Perdoar é ser fraco...

É triste, muito triste
Ver a dor em tantos olhares,
Ver trsiteza em todos os lugares.
Acostumar-se à violência, presente em cada esquina,

É triste, muito triste, ver a dor virar rotina...