Fragmentos de mim

domingo, 9 de junho de 2013

A noite está fria...

A noite hoje está fria, como há dias não a sentia. Carregada de mistérios, a noite é somente ela mesma e suas sementes - do bem e do mal - estão em mim. A noite hoje está fria e, no entanto, eu sinto sede...
Meus lábios estão secos de algo cujo nome não sei. Sei apenas que é algo total e exclusivamente meu, intocável, indefinivelmente meu.
A noite hoje está fria, mas minha alma sente calor, meu corpo arde de uma vontade infinita de estar viva. E, embora minha pele necessite de lençóis que aqueçam a carne, meu espírito sente-se aquecido pela divindade de Ser.
A noite hoje está fria e todo o calor do Universo reside em meu espírito, em nome de todo o Bem que viver representa. E hoje, só por hoje eu quero cometer todas as loucuras por amor. Hoje eu quero um amor para a vida inteira e, com ele, cometer todos os pecados dignos aos amantes. Só por hoje, eu quero um amor eterno, terno... Quero com ele compartilhar partes de mim e, no fim, deixá-lo ir embora como um dia que se vai com o crepúsculo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um toque de Deus

A vida, seus submundos e encantamentos... Certo dia percebi que isso existe e que é muito mais forte e verdadeiro do que um dia pude imaginar. Eu estava cansada, exausta de um dia inteiro de trabalho e sentia-me consumir pela inconsciência provocada pelo cansaço. Era um frangalho de gente, com olhos onde se cavavam profundas olheiras, pés pesados e um semblante fechado, típico de quem desejar fechar-se pro mundo.
Não que o mundo fosse ruim, mas eu estava em péssimas condições de fazer parte dele. Olhava para as coisas, casas e pessoas ao meu redor e, instantaneamente, via-me consumida por uma indiferença única diante do fato de existir. Quando não, tudo me irritava. Eu estava feito um barco à deriva, que desejava um lugar, um porto onde atracar e esse porto era a minha casa.  Sabia que lá não teria o aconchego de ninguém, além das paredes frias e de uma cama vazia à minha espera.
Fiquei ali, parada, aguardando ansiosamente a vinda do transporte coletivo. Na verdade, não estava ansiosa, não sentia a mínima disposição para sentir alguma coisa que exigisse de mim energia, por menor que fosse. Queria estar em casa, nada mais. Jogar-me ao primeiro cômodo onde pudesse descansar o corpo... Havia anoitecido e, aos poucos, as luzes dos postes começaram a misturar-se com as dos faróis dos carros e das lâmpadas que as pessoas acendiam em suas casas e eu ainda estava ali, aguardando, inerte e totalmente passiva diante da vida, a oportunidade de voltar para casa...
Olhei em direção ao local de onde vinham os ônibus e senti minha visão falhar. Nesse momento, eu não me sentia mais humana. Não sentia mais nada, sequer existia. Não era notada e nem queria, ou sentia, poder em me fazer notar. Na verdade, minha visão ficou turva e, por alguns instantes, não consegui mais distinguir o que eram os faróis dos carros, as luzes dos postes ou das casas. Olhei o céu e percebi-o estrelado e também as estrelas vieram fazer parte desse emaranhado de luzes. Percebi então, que as cores não eram mais cores apenas, elas brilhavam e tinham uma textura delicada, cintilante, podia senti-las como algo macio e delicado. As casas misturavam-se umas às outras e eu senti-me parte de tudo isso.
Eu não estava mais naquele corpo cansado, dolorido e pesado, eu flutuava sobre as casas. Feito mágica, as buzinas e vozes ao meu redor tornaram-se música. Eu era conduzida por todas aquelas luzes a uma dimensão até então desconhecida, e sorria. Não sei se meu rosto cansado sorriu, mas meu espírito, sim. Sorria um sorriso leve e tranquilo, ausente de todos os cansaços do corpo. Não sei por quanto tempo, eu me senti parte do cosmos... Ah, sim, eu era um pouco de Deus e dor alguma me atingia. Voltei a mim não sei quanto tempo depois, já no transporte coletivo, de volta para casa.
De volta ao velho e cansado corpo, senti que ele pesava mais ainda que antes da experiência surreal há pouco experimentada. Uma leve dor de cabeça assomava-se ao meu cansaço, mas a alma estava leve, preparando-se, inconscientemente, para conhecer os pântanos escuros e lamacentos que me aguardariam alguns dias depois.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Eu tenho um amor...


Descobri, depois de muito quebrar a cara que o amor não dói,
Que é a falta de amor que faz doer e sofrer...
Que a chama que aquece a paixão, excita a alma, é gostosa e ardente,
Mas não é amor... Ela apaga, e ainda bem, pois suas chamas queimam os tecidos da pele da alma...
A chama do amor, por sua vez, tem o mesmo excitar da paixão, mas o sabor é diferente: é encorpado, pois a chama do amor, aquece sem ferir...

Depois de um tempo, percebi
Que amar não é concordar, mas respeitar alguém que, mesmo tendo todas as diferenças do mundo, continua sendo insubstituível...
Que pessoas que nunca brigaram, que jamais sentiram o fel das diferenças não sabem se amam verdadeiramente,
Não é que o amor precise de provas forçadas,
É que é fácil amar se não há do que se irritar...

Depois de muito sofrer, percebi que não preciso sentir dor, amargura ou insegurança para amar. Que o amor dispensa humilhações e exige pisar no chão, em terra firme, para existir...
Que as chamas do amor são diferentes, pois permanecem acesas após os baldes e cachoeiras de água fria que as relações humanas nos impõem.
Descobre-se que se tem um amor quando após gritar pro mundo inteiro que não sente mais nada, que não há razões para isso, que tudo acabou, que era uma guerra (e que finalmente acabou)
Uma voz bem doce e suave feito brisa canta dentro da alma, dizendo que na verdade, agora é que se ama mais...
Que não importa se há dias de solidão, pois a alma do amante nunca está só...
Depois de tudo, descobri, finalmente, que tenho um amor,
Que buscarei quando sentir saudades, que encontrará as portas abertas, pois não é prisioneiro...
Que voltará sem que eu exija isso,
E que continuarei a viver (embora não de forma tão plena), mesmo sem sua doce e prazerosa companhia...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O pior de mim...


Constantemente, criamos imagens uns dos outros...
Entretanto, não são minhas palavras de afeto ou doçura que me definem:
Os momentos em que me encontro aparentemente em paz são momentos,
Nada além disso...
Há em mim a ira, o ódio, a mágoa, a dor...
Permeiam meus pensamentos ideias insanas, cruéis e, mesmo doentias.
Sádicas...
E isso, tanto quanto minha doçura e serenidade, também me define...
Não sei se sou boa ou ruim. Sou, apenas.
E sou as duas coisas, por não ser perfeição, mas por ser tão somente vida em evolução,
Consciente disso, em guerra constante contra mim e a favor de mim.

Porque todo julgamento limita, gera expectativas e cobranças de coisas,
Cujo preço não estou disposta a pagar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

palavras...

Ai, palavras que feito perfume exalam pelo ar,
Ah, palavras que feito música, na música, permitem-me cantar...
Ai, palavras que na dor de minha alma, permitem-me chorar,
Ah, palavras...

Que faltam,
Que falam,
Que gritam,
Que calam...

Palavras que abrem feridas,
Palavras que curam,
Que, na linguagem da alma, dispensam dicionário.
Que ajudam aliviar a dor de uma saudade,
Ou a destruir uma vida se mal dita.
Palavra maldita!

Ah, palavras, tão inúteis, às vezes,
Quando a alma sofre e falta alguém pra ouvir,
Falta alguém para falar...
Palavras que matam, aterrorizam, se falam demais...
Reveladoras, esconderijos, delação,
Tortura...

Ai, palavras de dor,
Palavras sem cor,
Palavra sabor,
Palavra perfume,

Palavra AMOR.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Porque todo Amor é pra sempre...


Queria poder te arrancar de mim,
Tal como se arranca do jardim a erva daninha...
Mas meu jardim não é de flor e,
Por isso, não posso...

Te arrancar, então, seria o mesmo que tirar minha própria alma.
Decidi carregá-lo em mim e para sempre,
Mesmo sem tê-lo ao alcance dos olhos e do tocar...

Oh, amor louco, tão oposto a mim
E de mim tão distante, que de meu eu tornou-se parte
Oh, amor doido, que de tão livre, encarcera-me em mim mesma...
Oh, amor insano, que de tão contrário a mim, fez-se indispensável...

Ajuda-me a me conhecer e a me fazer melhor que antes,
E amanhã, melhor que hoje,
E na outra vida, melhor que nesta...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O espelho interno


O tempo não apenas passa, voa... Incrivelmente calmo, ele abre e fecha feridas, destrói verdades e cria dúvidas, renova esperanças enquanto envelhece corpos, pessoas...
 E eis que as crianças tornaram-se adultos. Uns bons, belos, outros nem tanto. Muitos casaram-se, descasaram-se, tornaram-se pais e mães, grandes profissionais ou, simplesmente, sumiram-se, apagaram-se na poeria do tempo e da memória, que tudo guarda, mas nem tudo recorda.
Apesar de bobo e óbvio,e interessante perceber que os adultos de minha infância são os idosos de hoje e que, no amanhã, tão breve a chegar, os da minha geração e eu, seremos os idosos...
Interessante recordar o nome de uma criança ouvido na infância e vê-la transformada num homem ou mulher com rugas aparentes, olhares e andares cansados. Assim como eu, que pouco a pouco, sou roubada pela fisionomia de uma mulher madura, meus pais são tragados pela imagem de meus avós, enquanto novas crianças surgem no mundo.
Enquanto alguns medos e fantasias, problemas e dores simplesmente não passam, apenas tornam-se mais pesados pela fraqueza física do cansaço, a maturidade e a paciência nascem, tal como crianças doces e mudas e, nem por isso, menos sábias...
Alguns de meus grandes heróis, simplesmente morreram ou descobri que não mais me fascinam. Outros perderam-se na imensidão dos dias curtos que passam incessantemente.
O difícil disso talvez seja perceber que embora tudo tenha mudado, se transformado, surgido ou ido embora, eu simplesmente, não saí do lugar, e muito menos, cheguei aonde gostaria de ter chegado, embora tenha viajado bastante, até quando não me desloquei a lugar algum.
Agora sim está claro, a vida é movimento, por mais que eu me negue a me mexer.